Sombra


Preciso te dizer. Há quanto tempo não te vejo? 
Há quanto tempo meus olhos não te encaram?Depois de muito olhar fixamente para o sol radiante, tudo o que eu precisava fazer era olha pra trás...
  
  Logo você que sempre esteve tão perto, colada a mim pelo calcanhar.
Você sempre me fez saber o quanto eu já andei, como uma lembrança indubitável da minha presença no mundo. Um lembrete de Deus.O retrato mais rudimentar e antigo da minha existência.
Eu sei bem o quanto és paciente e silenciosa. Mas também sei o quanto tu podes ser audaciosa.

  No variar da luz, tu deixas de me ver por trás e toma a minha frente como alguém que não espera pelo fim da história. Alguém que perdeu a paciência e se apressou para dar o desfecho. Incrivelmente, quando tu te projeta no meu horizonte, eu já não sei mais o que é presente ou passado. Se caminho para frente ou se sou arrastado para trás. 

  No variar da luz, do dia pra noite, tu te põe ao meu lado como cão de guarda. Ao longo dos dias, a tua cor vai mudando. E às vezes se demora no movimento, mas nunca se atrasa para estar junto. Como posso dizer...entendes o que eu converso em pensamento?Eu olho para o lado e tu não te ausentas. Parece crescer em idade, sem no entanto envelhecer. Não insiste em exigir atenção, mas volta e meia se junta ao que está no chão. Um beco escuro, uma árvore de copa cheia. 

  Percebo teus hábitos mais frequentes: ao meio-dia se esconde debaixo dos meus sapatos. Quando vem caindo a noite, tu te mistura com a escuridão do mundo. Chego a me sentir traído, quase abandonado. Te percebo festejando com o escuro, como alguém que encontra um familiar antigo. Mas no fim das contas, eu te admiro pela tua permanência desinteressada e logo tu estás ali de novo.

  Contigo estou no mundo da maneira mais rente possível de forma que me junto aos outros e os outros a mim. Não existe sobreposição, apenas aderência, aglutinação. Não tenho medo de ti, mas volta e meia me assusta. Tão amiga e tão persistente. Fiel ao meu corpo em qualquer endereço, a qualquer preço. No quarto vazio ou na rua escura, estica e não descola, minha e só minha, sombra.

E tudo que eu precisava fazer, era olhar pra trás...

Comentários

  1. Neemyas... Que bom que tu reativou teu blog! =D Eu amei o texto... e eu sabia que eu ia gostar... heheh

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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.