A insônia dos fantamas

  
  As vezes demora algum tempo até que a gente entenda porque algumas coisas se quebram. Até lá, eu sei que nossos olhos se demoram dia após dia contemplando os cacos. Namorando cada resto de esperança, cada borra de presença. Ninguém sabe, ninguém saberá: Quantos planos, para consertar, foram traçados no quarto escuro do coração. Mas a quem cabe saber da dor senão aquele que apanhou, aquele que amou? Mas existe uma profecia entre os poetas, de que o tempo sempre haverá de discernir o que é a verdade...Mas...

  As vezes demora algum tempo até que a gente se acostume com a dor. Embora diga-se de passagem, que talvez ela não seja o pior dos males. Que talvez ela seja resquício de amor, e sendo assim, que coisa honrosa será, tratar da dor como um benefício do amor? Sentar ao fim do dia para coçar as próprias feridas, com os cacos de quem te amaldiçoou. Mas não desmoreça, a libertação de toda maldição, não virá, senão pelo amor e o socorro do crente é a certeza do poder de sangue, do poder do sangue. Aquilo que nos recai sobre a cabeça como o peso do ar, aquilo que nos acorda e nos espanta de nosso sono, como um fantasma com insônia que nos pede para lhe contar alguma história, que nos pede carinho. Tudo isso e seus resquícios. 

  As vezes demora algum tempo até que a gente entenda, que ás vezes demora um tempo até a gente entender...e que até lá, é preciso percorrer o espaço de um pedaço de vida, para que olhando para trás, seja capaz de perceber ao certo aonde tu estavas. Até lá, o silêncio do tempo se encarrega de fazer-nos ouvir aquilo de que precisa o coração, para seguir em frente. Entre momentos de desespero e de euforia, de cansaço e de correria, a única coisa que de fato nos salvará no fim de cada dia será, inevitavelmente o Amor. 

  Contarás então aos pequenos, nas primeiras manhãs dos sonhos, que não adianta conhecer o mapa, sem, no entanto, percorre-lo com os próprios pés. Na alvorada que sempre segue o fim das batalhas, o fim das violentas tempestades, sentarás em teu monte e enfim, sorrirás com o vento. Lembra-te que há tempo para tudo, inclusive para acalentar a insônia de nossos próprios fantasmas.

Comentários

  1. Filho, um dia ainda escreverei assim. Com tanta leveza e clareza; ambas, bem endereçadas ao coração. Valeu, muito bom. Ribinha.

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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.