A Fenomenologia e a sua palavra: Quem está aí?



 A palavra está aí. Como a fruta que amadurece na copa das arvores ela está à tua disposição. Se ela está ao teu alcance, isso caberá ao tamanho dos teus braços, ou à habilidade dos teus pés para subir os galhos. Ela está aí, dada e vendida, emprestada e escorregadia. Pode-se fincá-la sobre o solo dos sentidos para que se diga então serem estes os seus domínios. Mas por quanto tempo? É preciso lembrar que todo solo semântico é feito de tempo e que assim sendo, pode ser um tempo árido ou movediço. Creio ser um tempo movediço esse o que nós vivemos...
  Há quem não perca tempo, nem para se pôr de joelho, mesmo que por algum momento e, no entanto, acha-se guerreiro. Diz ir à luta, mas seus pés não se arredam um palmo do pé da cama. Envia as palavras desacompanhadas da boca que as pronunciou. Que benefício há nisto? Que pessoalidade? Qual guerreiro atira a flecha e esconde o arco. Como quem crucifica seus irmãos à distância da impessoalidade e à espessura de silêncio. Mas sua pena é assim cobrada quando a covardia não lhe cessa de soluçar por dentro: 
  "é preciso mais que isso!" 
  Se é para ser assim, por que não te cala? Por que não acompanha, quando sempre for oportuno teu genuíno silêncio de corpo e alma. Deixa ele ser verdadeiro, fiel e, sê assim tu também para com ele. Para que não te tomem por um demiurgo que se veste de uma capa filosofal. Palavrório... arte de copiar indiscriminadamente. Repete-se aqui um tanto e logo adiante um pouco mais e logo o sentido esquece a sua fonte. Pois todo circulo é viciado, todo círculo é vicioso... 

  Cala-te, é simples. 
  
  Por quanto tempo permanecerás, arqueiro de aljavas alheias?

  Há muito se diz entre quem repousa no sossego das frases d-efeito: "Precisa-se de atitudes, não de palavras". Mas as palavras não são atitudes? Elas mesmas não demandam de nós esforço para subir até a copa das árvores, ao cume dos montes, às fossas oceânicas mais profundas? As palavras são atitudes. Do contrário a psicologia da escuta ou a escuta da psicologia não teria eficácia alguma. Eu ainda ouço meus pais a dizer: "As palavras têm poder". De modo que é por isso que eu te encorajo a ti e a mim também: Levanta sobre a tua cabeça o arco com que alvejas-te o alhures. Pra que mesmo à distância, reconheça-se que estas flechas, as tuas palavras são tuas. Se puderes, toma as tuas flechas e as pinta da tua cor predileta. Adorna sua haste. Deixa teu sabor na ponta metálica, para que, sendo fatal, o corpo do teu alvo tenha tempo suficiente de saber, pelo gosto na carne, a aljava da qual lhe sobreveio a palavra.

  Nem tudo no mundo há de se resolver com etimologias, saiba disso! Chegará um tempo em que não bastará mais dizer o original do grego. Nesse tempo solicitar-se-á: sinceridade. Pois, ademais, de que adianta dizer qualquer Alethéia, sem, no entanto, desvendar o teu sotaque, teu timbre, tua face. Não pode haver palavras se não há boca, mas se entendo que o corpo também é boca, fala então também o mudo.


                                                          * * *

  A fenomenologia, ela mesma não pode ser muda. Digo muda no sentido da ausência de boca. Ela, é preciso dizer, não se detém em uma Erscheinung[aparição] de um sol que nasce anonimamente, diante de anônimos olhos. Estamos aqui em cumplicidade com o mundo. Estar nele é ser cúmplice de toda sua fenomenologia. Dia após dia, as explosões estéticas que nele ocorrem são feitas não apenas de olhos, nem tampouco de objetualidades. De modo questões epistemológicas não se resolvem na pedra ou não mão, mas mão atirando a pedra. Assim, o ensinamento de Husserl à psicologia, por exemplo, não se restringe à resolução de uma questão epistemológica sobre a consciência entre as tradições racionalistas e empiristas, antes seu projeto sempre foi conduzido pelo princípio da intencionalidade.
  Não se pode falar de intencionalidade sem falar de existência. Existe intencionalidade e é por isso que não pode haver palavras sem boca. A palavra é gesto, é gestação e a consciência, dirá Emmanuel Lévinas, implica presença.
  Alguém caminha solitariamente por uma terra nebulosa, seus passos se arriscam ao limite de um palmo de vista. De repente o viajante ouve passos se aproximando até que param a uma certa distância. Ele está certo do que ouviu, disso não pode desconfiar, mas a sua certeza só o leva a um questionamento inevitável ao qual ele não pode recusar expressão:

"Quem está aí?"

  Ele não perguntará: "Você aí na neblina, você está caminhando?", como fazem alguns céticos. Ou ainda: "Você tem pernas? como poderia perguntar algum empirista. Não faltariam questões como essas para alguns filósofos. Mas quando estamos sós e então somos surpreendidos com uma presença alheia, logo perguntamos: "Quem está aí?"

  Esta é a pergunta que fazemos no escuro ou ainda diante da porta da frente de nossas casas quando há alguém do lado de fora. Assim também toda a Erscheinung[aparição] fenomenológica só tem sentido no intercurso da pergunta e resposta: 

"Quem está aí?"


  De que serve isto à psicologia, por exemplo? Ora, a pergunta que vai é a mesma que volta! Quer se compreender a existência humana? Pois lembre-se de que "Quando você você olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você". Reversibilidade! Como poderá se responder o que é o sujeito sem que em meio à densidade da neblina, não perguntemos: Quem está aí? Poderemos presumir quem é este que caminha em nossa direção e que em certa medida, depois de se aproximar, estaciona a alguma distância de nós? A psicologia opera nesta neblina. Perguntar-se-á: Quem está aí? e mesmo antes que aquele outro possa responder, o eco de nossa voz há de trazer de volta a mesma pergunta: quem está aí? Esta é a reflexão fenomenológica e ela só se dá na reversibilidade da existência.
  Não há como o psicólogo ultrapassar a distância entre ele e o seu horizonte, sem que ambos se dêem à mudança, a não ser que este seja um horizonte congelado ou emoldurado e posto na parede. Dizíamos que a palavra está aí; podemos fincá-la sobre o solo dos sentidos, mas não se poderá dizer por quanto tempo há de se permanecer assim. A ciência se equilibra sobre conceitos feitos de fotografias, e não podemos condená-la por isso. Todavia é preciso sempre considerar: o horizonte esta aí, sempre mudando.
  A fenomenologia está aí para nos dizer que há intencionalidade e para então perguntarmos: "Quem está aí?". Mas quando alguém decide atirar uma flecha, sua própria flecha, o que acontece entre o momento em que se puxa a corda do arco até o momento em que a flecha acerta o coração do alvo? Sabe-se que apesar da força, o arqueiro pode não ter boa mira. Ele pode ainda não considerar a direção do vento ou o ângulo do disparo, mas todas estas coisas estarão envolvidas de modo mútuo. Não é este mundo um drama, uma teia de intencionalidades? Como pode alguém alvejado pela palavra deixar de perguntar: 

"Quem está aí?"


Neemyas Batalha, 23/09/2014

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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.