Terra de "Esclarecidos"


  Um amigo tenta me convencer de que a música que ele está prestes a me mostrar é o melhor cover já feito de "Across the Universe". Começo a ouvir e meus ouvidos se deliciam com aquela voz semi-embargada que reclama no refrão: "nothing's gonna change my world". Depois do interlúdio regado à acústica de apenas um violão a banda entra acompanhando Rufus Wainwright. A música corre e agora estamos a concordar, realmente é um cover digno dos Beatles. Nesse momento, eu ainda estou a ouvir a parte final da música, meu amigo tenta dizer-me algo que eu não consigo compreender. Tiro um dos fones e então ele diz: "O Rufus é muito bom...não fosse o fato de ser viado...". 

  Ou então, de modo similar e não menos frequente... alguém que começa a ler um livro. Seus olhos correm vorazes pelas linhas de cada página de modo que ele mal pode esperar para chegar ao fim. Seu espírito descansa sob uma sombra em uma paisagem descrita nas palavras do livro. Ele permanece ali por algum tempo, inerte. Durante sua pausa, o leitor toma o livro e analisa suas "orelhas". Lá ele descobre que o seu autor é cristão, pastor de uma igreja no Brasil. O leitor não entende, mas por algum motivo sente-se compelido a não continuar a leitura. Não que não queira, mas sente que não deve. Talvez também não fosse tão interessante para um homossexual ativamente engajado nas questões dos direitos humanos ser visto por aí com literatura...evangélica?

  Afinal, direitos humanos é um assunto do interesse comum de todos? Se sim...então qual é a discordância?
Não sei, mas acho que ainda estamos muito longe de conversar sobre tal interesse de forma genuína. O que eu vejo, sinceramente, pelas redes sociais é uma luta por interesses particulares. Então veja só, o país se aproxima das eleições. Muita gente falando sobre democracia, e oportunamente é claro, falamos em direitos humanos. É uma eleição nacional, mas parece que não são brasileiros que vão às urnas, mas antes, evangélicos, gays, lésbicas, feministas e ateus, todos competindo pelo topo. Se critica o egoísmo de alguns políticos pela restrição de suas iniciativas unicamente aos currais de seus interesses. Todavia, o que é que se vê por aí? 

"Sou cristão, não voto em ateu. Sou ateu não voto em cristão. Sou hétero, não voto em homo. Sou homo, não voto em hétero.
  
  É como os dois exemplos que eu trouxe acima. Eu particularmente nunca votei em um candidato tendo como justificativa primordial a sexualidade dele ou a religião....acho que isso seria um pouco egoísta da minha parte, além de ser um pouco medíocre, quase mesquinho.  Acontece que antes de ser uma ocupação política que se dedica a um cerne coletivo, muitas 'lutas' políticas são motivadas apenas por questões identitárias. Algum problema na existência de identidades coletivas? De modo algum, elas precisam existir, todavia, mais que isso, elas precisam co-existir, nem necessariamente se anularem. Como eu posso ser tão raso a ponto de dizer que uma música não presta, pelo simples fato de ela ter sido escrita por um homossexual, ou cantado por uma lésbica? Como posso ser tão intolerante a ponto de dizer que reconheço que determinado candidato é a melhor opção para o país nesse momento, mas que não voto nele pelo simples fato de ser cristão?

 Pisoteamento por sobre pisoteamento...soterramento de identidades. Ateus por cima de cristãos, cristãos por cima de gays, gays por cima de machistas, e machistas por cima de feministas. Desculpem, se tomo aqui o machismo como uma ideologia, mas é que algumas vezes tenho dificuldades em discernir entre algumas atitudes machistas e femininas não fossem os prefixos. Combater o machismo com atitudes machistas, é nisto que consiste o feminismo de muitas(os)? Tenho certeza de que o feminismo precisa ser muito mais que isso. Creio que o feminismo esteja aí para falar de direitos iguais entre pessoas, coisa que fora por muito tempo e ainda é negado a muitas mulheres ao redor do mundo. Mas quando nossas perspectivas se afunilam em engajamentos supérfluos e retroativos a motivação final é a sobreposição de identidades. Fazer-se valer às custas do soterramento do outro. 

  Dizem por aí que religiosos são intolerantes, mas eu vejo intolerância em todas estas posturas ideológico-identitárias. Pessoas que vão ao Facebook protestar por direitos iguais entre pessoas heterossexuais e pessoas homossexuais, por exemplo, são as mesmas pessoas que no post seguinte, ridicularizam a fé cristã, fazem piada com o credo católico ou evangélico, tentam destruir valores, escolhas e convicções dessas pessoas esquecendo-se que minutos atrás estavam a reivindicar respeito? Como pode ser isto? Para mim, os argumentos de tais pessoas não têm credibilidade alguma visto que infelizmente o superficial e confuso engajamento das tais está alhures de se preocupar com um bem coletivo. Realmente é uma pena ver tantas pessoas que ainda não compreenderam que não se combate preconceito com preconceito.

  Preconceito dos preconceitos, tudo é preconceito? Já não há conceito que subsista por um milésimo de segundo? Já não há como dizer algo, ou acreditar em algo sem que isso se torne falível e ideologicamente revogável? Por onde anda toda a Aufklärung moderna? Quando digo que alguém é preconceituoso por ter determinada convicção, subentende-se que eu me aproprie bem do conceito do qual o ignorante está a falar erroneamente. Subentende-se também que eu tenha o conhecimento genuíno de tal conceito, do qual o preconceituoso nem desconfia. Mas então se todos são bem conceituados e totalmente esclarecidos, como pode haver pre-conceitos? Agora somos todos tão bem informados, uma terra de esclarecidos, mas ainda acontece tanta atrocidade. É paradoxal ver que sendo todos bem conceituados, chamam-se uns aos outros de preconceituosos. Em terra de "esclarecidos", tem tem a melhor ideologia é rei...ou presidente. Mas é tão fácil assim chamar alguém de preconceituoso...difícil mesmo é perguntar-se sobre a própria ingenuidade. Talvez a fenomenologia nos ajude neste ponto, da filosofia à política, e da política à profissões como a psicologia. M

  Pois lembrem-se meus queridos... hoje tudo passa pelas lentes de uma ideologia. Preciso de uma para viver...não consigo mais compreender-me nem a mim, nem ao outro, nem ao mundo sem essas lentes ideológicas. Até que um dia essas lentes recubram não mais apenas os meus olhos, mas os meus cabelos, meu crânio, meu pescoço e todo meu tronco. Continuará por meus membros superiores e inferiores, e assim isto será eu. Eu sou as lentes que eu uso. 

  "Não posso me esticar tanto para dançar com aquele cristão, as lentes, ou se preferirem as roupas ideológicas dele são demasiado arrochadas."

  "Tudo que aquele gay fala com a própria boca, é profano. Sei disso porque o som de sua voz passa por essa gelatina ideológica que há entre o meu tímpano e o mundo e a que chamamos: "religiosidade"."

  O problema não é a existência de identidades coletivas, o problema é a maneira obtusa com que elas são tomadas. As pessoas não conseguem mais ver as outras além do que está disposto enquanto rótulo. Isto sim é preconceito: não querer ver além do que já está posto. Assim as pessoas se reduzem à ideologia que elas professam. 

[Fulano é Cristão -> Todo Cristão é homofóbico -> Fulano é homofóbico.]

[Sicrano é Gay -> Todo Gay é pervertido e tem DST´s -> Sicrano é pervertido e aidético.]

Essa lógica era a mesma da pedagogia nazista: 

[Fulano é Judeu-> Todo Judeu é Rato -> Fulano é um rato]

  Interessante como eu, já fui assediado por homens homossexuais várias vezes. Já passei por situações em que a pessoa tentou passar a mão, como se diz aqui no Brasil. Mas quando isso aconteceu eu sinceramente não me perguntei se aquela pessoa era machista ou feminista ou qualquer outro rótulo, só sei que fiquei com muita raiva por ter sido desrespeitado por uma outra pessoa que nunca vi em minha vida. Entretanto, não levantei uma bandeira anti-gays, não depredei ou pichei muros de boates gays, como se faz hoje em dia com igrejas, por exemplo, nem tampouco fui ao facebook ridicularizar pessoas homossexuais. Não fiz isso, porque conheço pessoas, que por acaso são homossexuais, amigos inclusive, e que são pessoas extremamente respeitosas, pessoas que não teriam esse tipo de atitude, antes reprovariam. 

  Então, será possível que não consigamos mais falar fora de nossos idioma ideologicamente partidários? Ou então, como questionou Michel Foucault: "Será, então, fatal que não conheçamos outro uso da palavra que não seja o comentário?". Tenho minhas convicções como pessoa e tenho minhas convicções como cristão. Tenho meu modo de compreender o que entendo por família, por Deus, por futuro, por passado, por vida e por morte, mas nunca precisei pisar em um ateu ou em um umbandista para ter tais convicções. Sou heterossexual, e do mesmo modo, não preciso ter orgulho hétero para compreender minha sexualidade e desfrutar dela. Sou homem, do sexo masculino, mas sou mais que isso, muito mais....pois aprendi com Cristo a respeitar pessoas, seres humanos, independentemente se eles são mulheres ou homens, cristãos, não cristãos, ou o que quiserem ser. 

Neemyas dos Santos


 

Comentários

  1. Alguns crescem..observam..gozam ..analisam .. escrevem, e ai nasce.. São eternos.

    Outros...nascem ..crescem ..reproduzem e morrem no mesmo caminho..
    O ser Humano é a melhor espada de samurai ...e também uma Kriptonita.
    Ainda bem que tenho um litoral logo ali...Aloha._) _) _)

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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.