Sæglópur


  Não tenho mais dúvidas, isto me será para sempre. Como um retrato vivo pendurado nas paredes agitadas da minha memória. Não deixarei de recorrer a esta imagem sempre que quiser lembrar deste poder insondável. 
  Nem ainda o sol se levantou e já me pus de pé. Caminhei até a praia e me sentei na areia fria esperando pelo nascer do dia. Eu nunca poderia me perguntar, nas profundezas do meu coração, mas o futuro que ali se presentificava me chamava a testemunhar: "O que mais poderia nascer junto com o sol? ". Então eu te vejo emergindo com euforia. O vento me trazia teus gritos, mas eles não eram gritos de quem está morrendo, eram gritos de quem está nascendo. Tal como os gritos de um bebê que vem ao mundo.
  Por quanto tempo tu estiveste adormecido sob as águas do teu próprio coração? Desceste até as maiores profundezas de ti, mas o que encontras-te senão a escuridão do teu próprio oceano. E ali, esquecido pelos navegantes da superfície você pegou num sono quase eterno. O sono de quem não quer ser acordado. Sobre a tua cabeça cresceram carapaças e a tua pele se tornou em escama. Teus olhos já não conseguiam discernir entre o dia e a noite.  Sobre o teu corpo frágil cresceram algas marinhas de modo a se camuflar prisioneiro por cima dos corais. Um prisioneiro do mar, tal como um Sæglópur.
  Mas assim como um filete de luz ousa penetrar nos lugares mais abissais do mar, assim também a Sua voz vagou pela imensidão procurando-te diligentemente. Sua palavra ecoava de canto a canto até que fez vibrar os teus tímpanos. Ele raspou a tua pele, tirou tuas escamas. Limpou teus ouvidos e encheu teus pulmões encharcados. Sussurrou algo que só tu escutou e depois te puxou pra cima. Sim ele te trouxe nos braços, carregando-te contra as muralhas de água.
Quando te vi voltar das entranhas do mar adormecido, meu coração se encheu de esperança. Você caminhou em minha direção, sentou ao meu lado e me disse: "Eu nasci de novo..."

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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.