O Jardineiro do Cemitério


Importa antes dizer que "Ele está vivo". Dizer que "Ele não está morto" serve lá a uma preocupação epistemológica tal como a de um cartesiano que crê mediante a primazia do pensamento,  um pensamento que pensa criar.  Mas a vida de Cristo não é fruto de um pensamento que busca evitar o ceticismo sobre um Deus supostamente alhures ou indiferente. Pois quando chega domingo de manhã é Ele quem nos acorda, nos tira do nosso sono, ou de nossa insônia  e nos serve café da manhã.

Dizemos "Deus não está morto" e, no entanto, ainda estamos atrasados. Maria viu o Jardineiro do cemitério e perguntou por um morto, por um corpo sem vida. Dizer que Ele não está morto é a resposta dada a quem ainda procura por Deus entre os mortos. Como se em nossa humanidade, circuncidados pela existência e pela finitude quiséssemos a prova de que Ele pelo menos esteve vivo, que Ele era real. O corpo de Jesus seria essa prova, mas estaríamos então a falar de um cadáver. Todavia Ele disse "Este é o meu corpo...". Embora Cristo tenha sido entregue por nós antes mesmo da fundação do mundo o próprio Cristo insiste em registrar a permanecia do favor dado: "Isto É o meu corpo ENTREGUE em favor de vós..."

É preciso lembrar Lévinas quando este diz que "consciência implica presença", pois se Cristo nos é presença de domingo a domingo, não temos porque dizer "Deus não está morto", Nietzsche não está mais aqui para ouvir e caso estivesse faria objeções, pois a fé não se encerra em provas cabais, estas existem aos montes e ainda assim muitos escolhem ignorá-las.  Mas se dizemos e testemunhamos desta presença que nos acompanha no caminho, então nosso próprio corpo e o nosso "corpo próprio" dizem: "Ele está vivo". O leitor atencioso de agora em diante poderá decidir, o que são de fato as boas novas: o anúncio de uma conclusão epistemológica sobre a existência de um Cristo ou o testemunho do Deus vivo que é presença e que se faz presente no espaço e no tempo. Pois quem que diante de alguém que ressurgiu de dentre os mortos põe-se a anunciar dizendo: "Ele não está morto!"?  

Rio, 2015.


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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.