Depois do Vento


Daqui de onde eu estou apenas uma palavra ilumina meus dias. Esta palavra é uma promessa. Além da janela, eu continuo a olhar o que o vento é capaz de fazer. Hoje, pela manhã, eu tive uma visão, pouco tempo depois de acordar. Havia muito vento no espaço e eu podia ouvir sua voz. Foi então que alguém lançou um flash sobre o mundo, como se a terra fosse submetida e um exame de raio-x. Tudo que aconteceu não chegou a contabilizar o tempo de um minuto, mas eu pude me demorar na beleza e na estranheza do momento. Tudo se tornou em preto e branco e em apenas um golpe eu pude perceber o vento tal como alguém percebe as ondas do mar. Foi possível para mim e, não há como explicar, ver à luz do dia a realidade visual do vento. Lembro que eu estava em uma avenida deserta. As lojas estavam fechadas, mas algumas vitrines continuavam expostas. Apenas eu estava ali como alguém que espera por algum desfecho, um fechamento de sentido. Foi quando eu ouvi ao longe que algo se aproximava velozmente seguindo o percurso da estrada. A princípio eu não pudia ver claramente do que se tratava, mas logo que chegou perto eu já sabia...era o vento. Aquela cidade morta foi então invadida por um vento tão forte e impetuoso. Tive dificuldade de manter meus olhos abertos, mas pior seria não ver aquele momento que ter um cisco nas pálpebras.

Eu, Neemyas, não entendo ao certo, a razão de tudo aquilo.  A única coisa que eu sei é que eu fui o único a ver o que eu vi. No exato momento em que ele passou por mim tudo se tornou escuridão e então, como em um negativo fotográfico, todas as cores se inverteram. De alguma maneira eu pudia ver o vento em movimento. Ele era feito de milhares e milhares de feixes que se agrupavam e depois se espalhavam. Eu podia os ver açoitando as latas de lixo e derrubando-as. O barulho era como de uma catástrofe, mas não me sobreveio medo algum. Eu permanecia ali observando tudo. Eu continuei ali até que tudo se acalmou novamente. O silêncio foi se acomodando e se acomodando novamente. As cores do mundo voltaram a ser a mesmas de sempre...e a visão teve seu fim. A cidade se tornou devota da inércia. A realidade tornou a ser seca como um pão de muitos dias. Eu conversava com alguém em pensamento e dizia entusiasmado: "Eu vi o vento...Eu vi o vento..." E a voz respondia tristemente: "Sim, sim...mas só você o viu...". Eu não podia compreender a tristeza imediata daquela voz. O lamento que ela exprimia se juntava à frieza daquele espaço. Enquanto eu voltava meu olhar para a cidade uma pergunta devastadora me invadia a cabeça. Eu abri meus olhos e então pensei: "E quando o vento for embora...?"

Daqui de onde eu estou apenas uma palavra ilumina meus dias. Esta palavra é uma promessa. A promessa de que há vida lá fora...lá fora da existência.

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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.