De olhos bem abertos




Há tempos em que a inércia é o modo mais eficaz de engajamento. Deixar tudo ao encargo da paciência, repousar na pedra da espera e responsabilizar-se à mera presença. Deixar é o verbo de ação primeira. Permanecer à escuta, à espreita do tempo, na beirada do sono e na esquina de qualquer movimento. Há tempos de respirar por dentro, transformar grito em pensamento. Há tempos de balizar-se no ar, poupando-se à energia das asas chega-se então o tempo de planar ao invés de voar. Viajar ao sabor da brisa.

É verdade, quando crianças ouvíamos falar de uma idade das trevas, a terrível noite de mil anos na qual as pessoas se tornaram cegas pela impossibilidade de abrir os olhos. Naquele tempo de dantes os olhos não tinham muita utilidade para a grande maioria. Foi assim que por força de hábito ou por desnecessidade eles deixaram de ter sua função. Os olhos dos homens atrofiaram, secaram e afundaram sob a pele do rosto até que a órbita ocular ficasse oca.  Como foram terríveis aqueles dias, diziam nossos mestres professores. Foi à luz de muitas fogueiras humanas que os homens foram recuperando a visão aos poucos.   

Eu não reclamaria dos tempos de hoje, caso não soubesse dos tempos de dantes. Mas a sede de vingança ainda seca muitas bocas. A guerra pelo fogo continua e a grande águia ainda dilacera o estômago de Prometeu dia após dia. Não que a tragédia seja real, é que o homem ainda acredita na possibilidade de ser como Deus em sabedoria e poder. A antiga mentira da serpente ainda faz vibrar os nossos tímpanos e os nossos corações. Esta é a razão pela qual hoje todos têm olhos, mas igualmente sofrem de cegueira. É que esses são tempos em que pessoas perderam o dom da visão pelo excesso de luz. Pois o dom de ver não se restringe ao olhar. Mas condenados pelos mesmos libertadores de outrora os homens são obrigados a olhar diretamente para o sol sem, no entanto, poderem fechar os olhos. Foi exatamente isto que roubaram de nós. Os homens tiveram medo do sono dogmático da idade das trevas e por isso decidiram-se por foracluir as pálpebras. A neurose medieval se aperfeiçoou na psicose que é a vulnerabilidade de olhos que não podem se fechar. O retorno do que é visto invade e estupra a retina sem pena. O medo de ver aquilo que vem de dentro, e isto acontece quando fechamos os olhos, levou os homens a se obrigarem a viver como peixes, de olhos bem abertos e sem a possibilidade de fechá-los. 

É por isso que hoje somos todos muito bem instruídos, somos todos muito conscientizados, somos todos donos dos nossos próprio corpos e sabemos sobre tudo que há no mundo, todavia pouco sabemos de nós mesmos. Não há um instante de repouso, não há um segundo de escuridão. Somos um povo que dorme de olhos abertos. Nos perdemos não pela carência de referências, mas pelo excesso delas. Reivindicamos tanto o poder à palavra e, no entanto, ainda não temos direito à voz.  Desaprendemos a falar porque ficamos surdos pelo ruído ininterrupto de vozes que não as nossas mesmas.Nossas crianças morrem de tanto gritar e nós adultos morremos pela carência de silêncio. Sufocamos pelo excesso de palavras, palavras alheias. 

Há quem queira ver o sangue descer. Por isso, eu vou dizendo que estes são tempos de viajar ao sabor da brisa. Esperar alguém terminar de falar e deixar que se deixe escutar. Pois se algo a se considerar é que só se aprende a ouvir calando-se. De modo que o calar-se seja mais que mera educação até que se torne em um instante de poupar-se do falar.Há quem queira fazer outra guerra em nome da paz, há quem queira atirar a segunda, a terceira e a última pedra. Os intelectuais que mais reclamam de uma liquidez dos tempos são os primeiros as se exasperar quando esbarram com algo sólido. Mas para mim, neste momento, a inércia é o modo mais eficaz de engajamento. Estacionar a vontade de chegar, deixar o camelo passar pela agulha. Permanecer à escuta, à espreita do tempo, na beirada do sono e na esquina de qualquer movimento. Pois o salmista dizia que o choro dura a noite inteira, mas a alegria vem com o amanhecer. Assim sendo única coisa que me resta a fazer, a única coisa de que preciso no momento é de um pouco de escuro. 

Neemyas Batalha

Comentários

Postagens mais visitadas

Minha foto
Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.