Rotação e Translação


Às vezes, em sonho, consigo ir a lugares que só existem em sonho. Muitas das histórias que conto as pessoas acontecem nesses lugares, eles são para mim janelas abertas entre o universo dos sonhos e aquilo que as pessoas chamam de realidade. Já deveríamos, no entanto, há muito saber que são as coisas invisíveis que nos permitem falar das coisas visíveis e da mesma forma, o contrário. As coisas visíveis testificam daquilo que nos é invisível. 

A verdade é que assim como um peixe só pode viver e se mover no interior da água assim também as coisas visíveis só se revelam, vivem e se movimentam no invisível. O invisível está para nós como a distância necessária entre o mundo e o nosso espírito, só assim podemos nos saber existentes. Ele está para nós como espaço, como espessura,, como atmosfera, como armadura que sustenta toda a visibilidade que se ergue. "Porque Nele vivemos, nos movemos e existimos" (Atos 17.28). A fé é uma flor que brota no ar. Ela olha para si da raiz ao caule e não sabe explicar como pôde florescer. Mas também nunca foi necessário explicação para haver entendimento. Quando eu era apenas um bebê eu entendia o que era fome sem, no entanto, ter as explicações para isto. Eu deixava todos ao meu redor saberem da minha fome inexplicável. E todos entendiam a minha fome sem que eu precisasse pronunciar uma palavra sequer. 

A primeira vez que eu vi o planeta terra conversei baixinho comigo mesmo: "Então não estamos pisando em solo firme...?" Quão agradável seria para mim a sensação de pisar uma terra sem limites, um chão que pudesse alcançar todas as extremidades do universo de ponta a ponta. Que abaixo de minha cama se estendesse um chão infinito. Então eu dormiria em segurança, pois saberia que não estamos girando, ou caindo, ou sendo arremessados de um canto ao outro do universo. Inclusive eu acredito que esta náusea da qual padecemos nós e o resto da humanidade é em virtude desse tal de movimento de rotação. Girar em torno de si é um perigo sem fim, embora seja este o movimento preferido da nossa humanidade: girar em torno de si. A existência pode ser compreendida como um movimento simultâneo de rotação e translação. 

Ouvi falar de um deus desconhecido. Um deus invisível que fez o mundo e tudo que nele há, mas que sendo invisível, não habita em templos feitos por mãos humanas. "Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas; E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação" (Atos 17:25,26). Então este deus desconhecido habitou entre nós cheio de graça e de verdade. Deus virou menino e sobre o seu telhado brilhou a estrela da promessa. "Porque um menino nos nasceu e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz" (Isaías 9:6). Então estes são os nomes do Deus desconhecido. Este é o Deus invisível, o Deus desconhecido.  Se assim Deus é invisível, e se então Deus foi menino, eu não tenho mais medo do invisível. Eu descanso no invisível. Aliás eu gosto mesmo é de rede...o bom crente aprende a viver embalado. 





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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.