O Retorno da Esquerda



"Mas o homem para onde irá? Pelo menos, sempre se nota que ele fica um pouco sem jeito quando consegue atingir algum dos seus objetivos"
Fiódor Dostoiévski

  Acho que Dostoiévski descreve bem o estado de graça ou de desgraça da direita brasileira. A direita brasileira não sabe bem o que quer, só sabe que quer vencer. Mas basta observar o que lhes acontece quando vencem: eis aí todos calados, não se ouve uma panela. Ouçam o silêncio da direita...Chega a ser vergonhoso. Parece que não sabem bem o que dizer, qual criança atendida depois de muito berreiro. Pronto está aí o que tanto pediam, e agora? "Agora não sabemos o que fazer, precisamos de alguém que nos guie...". E a esquerda? 

  Ouvi dizer que a esquerda brasileira estava enfraquecida ou moribunda por todos os acontecimentos recentes. Acontece que não...a esquerda brasileira estava apenas com sono. Apenas uma coisa poderia colocar a esquerda pra dormir. O que seria isso? Ora, um 'governo de esquerda'. Mas existe um governo de esquerda? Lembro agora que certa vez Gilles Deleuze disse que "não existe governo de esquerda", que no máximo o que poderia existir era um governo que fosse favorável aos interesses da esquerda.

  Agora eu preciso confessar que em meio a tanta briga de torcidas, entre coxinhas e petralhas, uma coisa me agrada muito: Se a direita se calou a esquerda abriu a boca. Fazia um tempinho que eu não ouvia a esquerda se posicionando frente à corrupção, às irregularidades de governo, aos desvios de verba, às injustiças, hospitais sucateados...e por aí vai. Havia um certo contrato de silêncio, desses que existem em família. É como se não se pudesse falar mal dos podres cometidos pelos nossas parentes de esquerda.


  Foi uma obscura e terrível noite essa de 13 anos. Foi uma noite quieta aonde não se ouvia a esquerda brasileira abrir a boca pra dar um pio. Se a direita se calou, que bom que a esquerda despertou. E isso, sinceramente me deixa aliviado, não é da direita que se espera a luta e a transformação. Mas agora sim o 'anão' acordou. Digo anão porque a esquerda, segundo o próprio Deleuze não pode ser o maior, não pode ser maioria. Portanto, quando diziam que o "gigante" havia acordado, quem acordava era a direita e não a esquerda, correto? Agora o anão acordou. Enquanto a popularidade da presidenta caía a esquerda voltava a ser 'minoria'. Isso me leva a crer que, de certo modo, o "gigante" acordou o "anão". Pra quem gosta de Star Wars, compreende-se que apenas com "A vingança dos Sith" foi possível "O retorno do Jedi". No caso as senhoras e os senhores hão de entender quem são os Sith e quem são os Jedi. Os Sith, sempre há dois deles, o mestre e o aprendiz.


  Acreditem quando digo que fico contente em ver tanto descontentamento nas redes sociais. Eu não os via enquanto a presidenta estava no governo. Não que eu concorde com o impeachment, pois até então eu não cria que o sacrifício de um bode expiatório resolveria os problemas da nação ou apagaria a mancha da corrupção. Mas parece que o afastamento da presidenta acordou a bela adormecida. A esquerda dormia sob o encanto de um governo de esquerda. Mas isso é um encanto... 

  Acreditem quando digo que fico aliviado em ver o despertar da esquerda: "a revolução não vai passar na tv é verdade" dizia a Nacão Zumbi. Mas muito me assusta esse encanto ao qual a nossa esquerda é tão favorável. Muito me assusta pensar agora sobre o silêncio que se fez e que se faz aos pecados dos "irmãos de luta". Me assusta questionar a que custo a esquerda se calou diante de tanta atrocidade cometida pela família partidária. Ao meu ver isso revela uma mácula ética terrível no qual o comprometimento parece ser mais fiel à bandeira do partido que à verdade.


  Se Deleuze está correto quando diz que ser de esquerda é uma questão de percepção então há que se julgar para o que nós fechamos os olhos. Volta e meia a esquerda esquece que é canhota. Isso acontece quando ela confia ao governo a sua própria posição reivindicatória. Quando ela confia a um partido sua capacidade crítica de ver o mundo. Quando dorme porque tem fé num presidente ou numa presidenta. Quando faz contrato de silêncio enquanto tudo ao redor grita. Quando tenta recalcar os pecados do partido porque crê na ideologia partidária do ego. Segue-se a idolatria partidária: "Os olhos devem ser fechados para os pecados dos pais". Coube a Freud e cabe a nós infringir, mesmo que ela nos cause vertigens.


  Se Deleuze está correto quando diz que ser de esquerda (ou de direita) é uma questão de percepção então a Gestaltpsychologie pode nos ajudar. Se ser de esquerda é uma questão de percepção ela também é uma questão de posição e, portanto, ela precisa estar para além do bem e do mal, para além de uma questão partidária, apesar da questão partidária. Se a esquerda dorme sob um governo esquerdista é porque não é esquerda coisa alguma. 

  Sobre o momento de nossa política é engraçado ver o modo como a tomada de um partido (parte) faz 'esquecer' o restante (o todo). Mas não é esquecimento. Ou melhor, é preciso tratar o esquecimento como atitude. Dizer que é golpe é fácil, difícil é encarar a violação da lei de responsabilidade fiscal. Clamar por Impeachment é fácil, difícil é encarar os interesses danosos que anseiam por isso. No fenômeno da percepção não escolhemos apenas aquilo que queremos ver, mas também aquilo que não queremos ver. Acho que já é tempo de assumirmos essa verdade. 


  Por vezes, no instante do olhar, o mesmo motivo da pregnância é o mesmo motivo da ignorância. O certo é que a estrutura da percepção não é fortuita, ela tem um sentido, o sentido da escolha do percebido e do impercebido. É engraçado 'ver' como nós escolhemos 'defender' algo somente na medida em que tentamos excluir toda sorte de acusação do nosso campo de visão. Ignorar também é atitude, mas aí não se faz valer a justiça e o direito. 


  É porque dá mais trabalho renunciar à figura preferida para nivelar tudo de novo e ir buscar no fundo outras possibilidades de figura. É possível que tais figuras não nos sejam pregnantes, mas ao menos podemos deixar de ser por um minuto orgulhosos ignorantes. Toda percepção se deixa envolver por um impercebido. Aonde muito se percebe aí também há muita negligência. Nisso não há problema algum. A questão é a de saber por qual razão nós não conseguimos mais admitir nossos pontos cegos. 


  Tenho visto muita gente inteligente recitar Belchior estes dias: "Nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais". Não sei ao certo se recitam isso como louvor ou como lamento, ou se ambos. Ora louvam porque creem numa concepção cíclica da história e da política, depois se lamentam da repetição. Talvez seja porque essas pessoas amam o passado e não vêem que o novo sempre vem.  Às vezes me assusto com o dano cerebral provocado pela teologia hegeliana e não menos professada ingenuamente por gerações de 'revolucionários'. Não acredito que a alienação seja fortuita assim como não é a revolução. 


  A revolução, diz Merleau-Ponty, não é "o produto das condições objetivas, inversamente é a decisão que o operário toma de querer a revolução que faz dele um proletário". Ou seja, não é o fato de eu ser esquerdista que faz de mim um revolucionário, mas é o fato de eu ser um revolucionário que faz de mim um esquerdista. A esquerda não pode esquecer que é canhota, sobretudo quando estiver sob a proteção de um pretenso governo esquerdista. Afinal, como diz Merleau-Ponty: "Não é apenas em período de crise econômica que o movimento operário progride".


Neemyas Santos

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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.