"Para que experimenteis..."



Eu presumo ser bom. Sei disso sempre que olho para a multidão de perdidos. Homens entregues as drogas e, que perdidos, sequer recordam o caminho de volta pra casa. São homens errantes e desacreditados. Pessoas violentas e corruptas, mulheres cheias de si e que desprezam a revelação das sagradas escrituras. Sempre que os vejo, presumo eu mesmo ser bom. Isto me traz uma certa folga de espírito e estranhamente a maldade do mundo me faz pensar que eu sou bom. Sempre que os vejo sinto-me como o homem são que ao fim da visita deixa o hospital aliviado e jubiloso por não ser ele o moribundo. Por um doce segundo a morte parece estar ocupada e, então, o homem são, este homem bom esquece a própria finitude. Senhor, acaso eu sou bom?

Existe um consenso de que somos bons, pois em maioria acreditamos que nos basta a bondade de que já dispomos. Somos suficientemente bons se comparados ao homem ímpio. De modo geral, nunca se creu tanto na humanidade. Pregam por aí que nunca fomos tão livres de todas as amarras e dogmas da religião e, no entanto, tantas atrocidades se perpetuam. Nunca se apostou tanto no recurso humano para a superação do mau. Mas a nossa própria humanidade, vez por outra, cedo vem nos recordar uma necessidade reincidente e que insistimos em negar. Trata-se do fato de que precisamos ser salvos de nós mesmos. Não, a humanidade não pode nos salvar de nós mesmos. Digo isso pelo simples fato de que a humanidade é feita de homens.

É comum que entre o povo de Deus se compartilhe o mesmo e pretenso consenso da bondade. Mas a fé não anula a nossa humanidade. É por esse motivo que Jesus não deixou de perguntar ao jovem rico: “Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus” (Marcos 10.18). A pergunta de Jesus não põe em questão a sua divindade, mas a nossa humanidade. Para o Senhor, a fé na humanidade é digna de maldição (Jeremias 17.5). Entretanto, para nós, se a fé não anula a nossa humanidade ela nos abre um caminho em direção à bondade de Deus. Na fé em Cristo Jesus encontramos a benignidade de Deus para com a humanidade.

“Para que experimenteis...” Esta é a palavra chave para a benignidade de Deus em nossas vidas. A benignidade do Senhor se expressa naquilo que Ele faz de bom para o nosso bem. Mas para tanto, faz-se necessário que haja um inconformismo com o mundo, é necessário que haja transformação e renovação do entendimento. Mais do que tudo, é preciso que revoguemos a fé que temos em nós mesmos em prol da fé em Cristo Jesus, nosso verdadeiro salvador. Em suma, é preciso que abramos mão da nossa própria vontade, para que experimentemos a vontade de Deus conforme Paulo ensina:
"...não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus"
 (Romanos 12.2).

Experimentar traz no prefixo ex o sentido de busca daquilo que está além/fora de mim, ou seja, algo que não me é inato ou que venha de mim mesmo. Assim se faz para que ninguém se glorie de ser bom (Efésios 2.2). É neste sentido que Paulo afirmava ser “experimentado” (Filipenses 4.12). Contemplamos a bondade de Deus quando entendemos que todas as coisas se tornaram pretexto para que nós experimentemos a Sua vontade que também é perfeita e agradável(Romanos 8.28). Portanto, não posso mais presumir que sou bom, mas prefiro assumir a necessidade de ser experimentado. É preferível assumir que dependemos da bondade de Deus. Pela fé e pela graça alcançamos a Sua benignidade. Pois assim como só é possível agradar a Deus por intermédio da fé, assim também só experimentamos a bondade do Senhor se reconhecemos a nossa própria maldade. Nós não somos bons, o Senhor é bom. “Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem!” (Mateus 7:11).

Neemyas Santos
15/05/2016
Texto originalmente publicado no boletim da Igreja Batista do Olho D'Água (IBOA)
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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.