Esta não é uma série sobre suicídio


Se você ainda acha que 13 reasons why é uma apologia ao suicídio é provável que não tenha entendido muito bem o que levou Hannah Baker a se matar. Na verdade a série trata de um background profundo no qual o suicídio aparece. É impossível olhar para o suicídio de Backer sem olhar para esse background. Eu separei aqui pelo menos 7 razões pelas quais essa série não é (apenas) sobre suicídio. E sim, daqui para frente só teremos spoilers. Se você ainda não assistiu a série não recomendo que continue a leitura desse artigo.

1 - 13 reasons why não é uma série (apenas) sobre suicídio, entenda isso.

Geralmente as pessoas que incentivam outrem a evitar a série não conseguem ver nada além da palavra suicídio. É como se o suicídio fosse uma espécie de agente psicológico contagioso que pode ser transmitido por uma cena ou pela simples vocalização da palavra. Porém não é bem assim que acontece. Quando alguém se mata as pessoas perguntam quase que imediatamente sobre o porquê. Como se houvesse apenas uma causa para o suicídio que logo tratamos de analisar se é ou não justificável.  Mas não se trata de uma causa, se trata de uma vida inteira em jogo.

Por favor, repare o nome da série, apenas o nome da série. Ela não está justificando o suicídio, ela está colocando a céu aberto toda a podridão que pode levar um ser humano ao desespero e ao suicídio. Portanto não se trata de 13 motivos pelos quais alguém deva se matar, são 13 motivos que ilustram situações cotidianas e extremamente frequentes ao redor do mundo nas quais muitas pessoas têm sido levadas ao desespero e ao suicídio.

2 - 13 reasons why é uma série que retrata detalhadamente o perigo e os danos do machismo.

Fica muito claro que o machismo não é apenas um problema no indivíduo, mas algo que é cultivado em termos relacionais. No grupo dos populares retratado na série, as atitudes abusivas, opressoras e agressivas praticadas por um dos membros são não apenas acobertadas, mas aplaudidas e endossadas pelos demais e isso inclui garotas também. Existe um pacto silencioso no qual a ideia de amizade é transformada em uma lei de cumplicidade à qual cada membro deve ser leal e fiel não importa o que aconteça.

Quando nos deparamos com a criação de grupos como esses é comum desenvolvermos apenas um sentimento de revolta e logo pensamos em modos de dissolver esses clãs presentes em escolas, igrejas e outros contextos. Queremos libertar os membros que de alguma forma estão presos a aquela cumplicidade doentia. Contudo antes de destruirmos esses muros é necessário que nos perguntemos por quais razões eles são tão altos. Por que grupos assim se formam em determinados contextos como o contexto do ensino médio, por exemplo? Quero dizer, o que há de tão perigoso lá fora? Bem, de quê exatamente esses jovens estão se protegendo ao criarem regras de condutas que acabam se tornando tão nocivas?

É interessante perceber como esses grupos são grupos que inicialmente são criados como grupos de pertença, de solidariedade, de irmandade, de acolhimento e de formação de identidade. São grupos-refúgio que no início oferecem ao novo membro um lugar de proteção, contudo muitas vezes esses grupos-refúgio constroem esse lugar na medida em que oprimem outros grupos de pessoas. Esse tipo de fenômeno me faz pensar pelo menos em duas coisas: Primeiramente me faz pensar que existe uma grande fragilidade nos laços primários de proteção e suporte a estes indivíduos e que essa fragilidade está aquém do contexto escolar, ou seja, na base familiar destas pessoas. E consequentemente, em segundo lugar, isso me leva a pensar que é exatamente a partir de fragilidades como essas que o machismo se prolifera. Que o machismo se origina não de um sujeito forte, mas na verdade da tentativa de corrigir falhas e fragilidades gritantes nas bases de proteção e suporte familiar.

O machismo é uma tentativa anômala de corrigir uma brecha do sistema protetivo e para isso exagera na altura do muro (o que me faz recordar também da ambivalência entre Pink, uma criança que sofre sem a presença paterna e o Ditador no qual ele se torna no filme The Wall produzido pela banda inglesa Pink Floyd). Destruir o muro é revelar totalmente as fragilidades do agressor. Por isso é necessário que antes de cairmos na tentação de apenas destruir esses grupos é necessário pensar o que culturalmente favorece a criação dos mesmos e nas razões pelas quais alguns indivíduos buscam nestes grupos um refúgio. É o caso do jovem Justin Foley (Brandon Flynn).

O seriado consegue mostrar de modo evidente a impossibilidade de vermos personagens como essas apenas como opressores, mas como sujeitos que de alguma forma nasceram em um contexto extremamente frágil, de violência e, que portanto, se tornam reféns de grupos que oferecem proteção. Lembremos que Hitler só pode florescer em meio a uma Alemanha devastada pela primeira guerra mundial.

3 - 13 reasons why retrata a solidão no mundo contemporâneo.

Existe uma certeza praticamente implícita de que aquilo que existe para ser dito não será ouvido. O seriado revela cruamente as dificuldades e entraves na comunicação entre pais e filhos e suas peculiaridades no mundo contemporâneo. Em nenhum momento Hannah Backer cogita a possibilidade de conversar com os pais sobre o sofrimento da mudança de cidade, as dificuldades de adaptação na nova escola, as decepções de amizade e amorosas e os abusos e agressões sofridos. Isso é algo gritante.

Ademais, na série, a escola dispõe de um counselor (aconselhador), mas fica claro o quanto a disponibilidade do mesmo não repara o vácuo de suporte emocional presente no contexto escolar. Em parte esse vácuo é criado pelo sentimento de insegurança no tocante a exposição de dificuldades pessoais, conflitos internos e problemas familiares. A ausência de credibilidade e confiança torna-se um entrave ao estabelecimento de amizades verdadeiras. Isso é demonstrado de modo claro na constante busca de Hannah Baker por laços amizades que favorecessem o estabelecimento de um lugar no qual ela pudesse se ancorar. Além disso para compreender esse tipo de solidão é preciso que nos perguntemos o que está em jogo. Se as pessoas têm se sentido tão solitárias não é exatamente por estarem sozinhas, mas pela fragilidade e pela liquidez dos laços humanos na contemporaneidade tal como revela Zygmunt Bauman.

É necessário que nos perguntemos o que está em jogo nessas relações. Logo após o suicídio de Hannah Baker pessoas de diferentes grupos da mesma escola se uniram e, pelo menos, por um momento, os laços foram, pretensiosamente, intensificados, mas com apenas uma prerrogativa: a preservação da própria imagem, o zelo pelo futuro em uma universidade promissora e a realização de ideais de vida. Todos estes aspectos prevaleciam diante da verdade acerca do suicídio de Hannah Baker e todos eles foram ameaçados pela morte da jovem. A solidão no mundo contemporâneo não é pela ausência de companhia apenas, mas pela fluidez das mesmas. Nada pode interferir a realização dos ideais pessoais. O que muitos não percebem é que "a felicidade só é real quando é compartilhada"("Happiness is only real when shared") tal como constatou Christopher McCandless("Into the Wild"). Nós passamos a acreditar que de alguma maneira é possível ser feliz de modo totalmente individual.


4-  13 reasons why é uma série sobre o uso prejudicial das redes sociais.

Ao contrário das gerações precedentes os eventos que acontecem na escola, não ficam apenas na escola. As piadas,  não se restringem mais ao ambiente escolar e ao cotidiano escolar, mas são levadas adiante e se perpetuam quando caem (ou, melhor, quando alguém as joga) na internet. Essa peculiaridade da vida contemporânea revela a presença tanto do bullying quanto do cyberbullying.

A exposição massiva de todos os detalhes da vida de um ser humano é algo potencialmente perturbador. Aparentemente não há mais qualquer brecha de sociabilidade que não seja recoberta ou alheia aos olhos públicos. Na medida em que para o adolescente não existe muita distância entre a ideia de identidade e reputação a destruição da reputação é o atestado não apenas de uma identidade ilegítima, mas da pessoa como um todo. A exposição aqui tem um fim não apenas de punição, mas de entretenimento.

Para Hannah Baker somos todos uma sociedade de Stalkers. Mas, mais do que isso, não nos contentamos apenas em evidenciarmos detalhes da vida privada de alguém, precisamos tornar isso num motivo de entretenimento, não apenas nosso, mas para todos os outros, razão pela qual não apenas recebemos, mas também compartilhamos.

5- 13 reasons why discute [possíveis] implicações entre homossexualidade e homoparentalidade. 

Mais recentemente a homoparentalidade tem sido algo a ganhar grande espaço nas discussões sobre adoção. Por um lado ela coloca a olhos nus o quanto os casais heterossexuais podem ser preconceituosos na escolha de um filho para adoção e o quanto essa é uma realidade triste. Por outro tende-se a falar dos casais homossexuais como remidores altruístas dos pecados dos casais heterossexuais. Como se estes, por sua vez, pelo simples fato de serem homossexuais fossem desprovidos de preconceitos e/ou preferências na escolha de filhos para adoção e que apenas desejariam dar amor. Não sei se as coisas são exatamente assim.

Existe um perigo nesse romantismo, qual seja, de fechar os olhos para todas as questões que podem estar envolvidas na adoção e criação de uma criança por pais do mesmo sexo. Diz-se que a criança não será homossexual simplesmente porque tem pais homossexuais, mas isso não é inteiramente verdade e a série demonstra isso com a enigmática personagem: Courtney Crimsen. Nada nos leva a crer que ela é homossexual em virtude dos pais homossexuais que ela tem. Contudo a série simplesmente nos abre a pensar sobre essa possibilidade e sobre a necessidade de considerá-la. A sexualidade dos pais é importantíssima para o desenvolvimento sexual de seus filhos. Por que isso seria diferente na homoparentalidade?

Courtney sofre bastante por não conseguir assumir sua homossexualidade e isso se dá pela relação que pode ser feita com os seus pais. Assumir a homossexualidade para ela seria o mesmo que assumir que ela é igual aos seus pais. Não sei se estou correto no meu modo de pensar, mas acho que homossexuais já sofrem além da conta por terem de assumir sua orientação sexual em contextos que são cotidianamente agressivos com essas pessoas. Me parece que romantizar a homoparentalidade pode na verdade dificultar ainda mais a vida dos homossexuais. Por mais irônico que isso possa parecer. Homossexuais são seres humanos como qualquer outros; têm preconceitos e podem discriminar outrem. Foi exatamente o que aconteceu no caso de Courtney.

6- 13 reasons why demonstra como  o estupro pode matar.

Uma das coisas mais legais a respeito desse seriado é que, diferentemente de outras séries, sua trama não se reduz a uma simples vingança. Antes ele propõe a substituição da busca por um culpado pela responsabilização mútua na qual todos são de alguma forma responsáveis. Penso que isso tenha sido feito de modo intencional ao longo de toda a temporada a fim de que cada um se perceba responsável pelas pessoas ao redor. Ao final da primeira temporada, Clay Jensen diz ao conselheiro que nós precisamos mudar o modo como nós cuidamos uns dos outros. Logo em seguida o próprio Jensen se aproxima intencionalmente de uma colega da escola para conversar sobre como tem se sentido e também para saber como ela se sente. Isso significa que a responsabilidade não é unicamente da escola, dos pais ou do psicólogo, mas dos colegas de classe, dos professores, dos vizinhos etc.

Por outro lado ao revelar a crueldade da violência sexual o seriado demonstra a necessidade da denúncia. Existem casos específicos nos quais foi e é necessário dar nomes aos bois a fim de que estes sejam responsabilizados e respondam inclusive criminalmente. Ao que tudo indica é para isto que a segunda temporada aponta: que Bryce Walker seja responsabilizado pelo estupro de Hannah Baker. 13 reasons why revela que o estupro mata e que Hannah Backer segundo ela mesma, havia morrido no momento em que foi violentada. A ideação suicida não começa com um: "eu quero me matar", mas com "eu quero que isso acabe", "eu quero sumir", ou ainda, "eu não consigo mais viver, isso é insuportável". Ela se sentia vazia. Não obstante a isso é preciso pontuar que a violência sexual não se restringe ao estupro, na verdade ela culmina no estupro. Porém durante toda o enredo da primeira temporada houveram situações cotidianas de abuso sexual sofridas por Backer e que costumam ser "socialmente aceitas" em alguns contextos. 

7- 13 reasons why põe em discussão o preparo e o compromisso ético de profissionais da saúde mental.

Embora o seriado tenha apontado para uma responsabilidade mútua ele também salienta a personagem de Mr. Porter, o conselheiro da escola. Hannah Baker o buscou como último recurso e ao invés de encontrar um refúgio recebeu um ultimato. Ficou claro que as questões institucionais e legais suprimiram ou vieram em primeiro lugar em relação ao sofrimento vivenciado pela garota. Não se trata de culpar Porter pelo suicídio de Backer, mas trata-se de enxergar que a história poderia ter um rumo diferente se a abordagem do mesmo priorizasse condições que permitissem a adolescente falar e expressar algo tão difícil e devastador. Nesse sentido a série chama a atenção de profissionais como psicólogos para uma escuta que nasce. de um comprometimento ético com a pessoa em sofrimento. 

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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.