Segurando o choro


No laboratório de anatomia...

...primeiros períodos do curso de psicologia; nossa professora de anatomia discriminava algumas estruturas da face até que chegou aos olhos. Ali estava ali, deitado de lado, aquele resto de face, a face de um ser humano encharcada e perpetuada no encanto químico do formol. E os olhos? Os olhos já não piscavam mais.

A professora então chamou nossa atenção enquanto localizava uma estrutura chamada glândula lacrimal. Depois disso ela apontou para aquela orifício minúsculo que é por onde as lágrimas vêm ao mundo. Assim mesmo ela brincou a dizer: "Pois pronto, é que as lágrimas nascem".

Imediatamente um sino soou em minha cabeça. Naquele momento, em um milésimo de segundo eu sentia que a nossa professora, que não era psicóloga, havia acabado de criar um problema filosófico. Minha constatação foi tão rápida e tão forte que tão pouco ela havia acabado de pronunciar o "é que as lágrimas nascem" e eu já estava a respondê-la instantaneamente: "não posso acreditar que as lágrimas nasçam ...quero dizer...exatamente ". A professora virou-se para mim, como que perguntando com o olhar o que exatamente eu queria dizer. Mas não levei nada a diante, fingi ser apenas um desses pensamentos que a gente, por descuido, deixa escapar em voz alta. Eu respondi a ela que eu apenas falara sozinho, comigo mesmo. A verdade é que quis degustar sozinho aquele pensamento impetuoso e imaturo.

A questão é que as lágrimas não nascem, ou pelo menos, não são concebidas nas glândulas lacrimais. Na verdade elas são produzidas pelas glândulas lacrimais! Raramente, mas muito raramente mesmo os olhos choram por si mesmos. É verdade que existem aquelas situações em que a gente lacrimeja quando cai um cisco e, sem ser convidado, se aloja por debaixo de uma das pálpebras. Mas lacrimejar e chorar são duas coisas inteiramente diferentes, do contrário não haveriam dois verbos diferentes para descrever estes dois comportamentos. Existe o comportamento de lacrimejar e existe o comportamento de chorar. É de se esperar que um psicólogo saiba discernir a diferença entre estes dois comportamentos.

Meu Deus, que verdade absurda...os olhos não costumam chorar por si mesmos. Os olhos choram em solidariedade a todo o corpo e o corpo chora com os olhos. Os olhos choram em solidariedade à dor de um corte feito na palma da mão, choram por um osso que se quebrou e choram por uma dor de dente. Mas os olhos também choram por uma dor de cotovelo. Você já sentiu dor de cotovelo? Dói pra caramba...

A dor de cotovelo é uma grande expressão de que nossos olhos choram não apenas por dores no corpo, mas por dores do corpo, ou seja, dores da existência. Os olhos choram quando somos rejeitados, quando sabemos que um familiar faleceu, quando estamos com medo, quando estamos tristes e até mesmo choramos sem saber porquê. Ás vezes dizemos que choramos sem motivo algum, mas a verdade é que os olhos sabem mais, eles sabem primeiro...só depois a gente entende.

Logo, se aquele pensamento imaturo que tive no laboratório de anatomia está correto, então as lágrimas não nascem nas glândulas lacrimais, elas vêm ao mundo pelas glândulas e canais lacrimais.  O problema filosófico e psicológico disso tudo é que não há como precisar, a olho nu, exatamente o lugar aonde nasce uma lágrima. As lágrimas revelam com muita propriedade a inespecificidade da existência humana, mas ao mesmo tempo revelam como elas são feitas de sentidos humanos. Elas são concebidas pelos mais variados motivos e razões. Às vezes nascem de um soco no rosto, mas às vezes nascem de uma saudade imprecisa. Se psicologia tivesse de escolher uma glândula para si essa glândula não seria aquela de Descartes, a pineal, mas a lacrimal. Que isso quer dizer Neemyas? Ora que a glândula lacrimal é a união entre mar e rio, é a pororoca psicológica da coisa. Quando entendemos que as lágrimas são concebidas alhures, mas só são produzidas no olho, ou inversamente que a gente só chora porque existe uma glândula, mas que o choro nasce da alma e isso é inlocalizável, daí a gente resolve o problema. Que problema? Ora, o problema do dualismo corpo-mente cartesiano. E o melhor é que a gente faz isso sem que tenhamos de nos abster de falar em corpo e alma. Ah...vá...deixe pra lá.

Não professora, as lágrimas não nascem nas glândulas lacrimais, elas nascem em nossa alma, em nossa existência. Eu sei que muitos psicólogos não gostam mais de falar de alma, mas eu realmente não me importo. Eles pouco sabem que as lágrimas são gotas de Alma. E a nossa alma é grande, tão grande quanto a nossa existência, tão grande quanto o oceano pacífico. É por isso que as lágrimas nunca acabam, nunca têm fim. A gente chora, chora e chora...chora até de alegria, chora de susto, chora de amor, chora de constrangimento, chora de felicidade, chora de saudade, chora de alívio... 

O que não pode é segurar o choro. Não sei se é uma necessidade fisiológica, mas é uma necessidade assim como é necessário urinar, por exemplo. Quando alguém segura a urina por muito tempo corre o risco de desenvolver uma infecção urinária, ou um problema na bexiga como a incontinência urinária. Segurar o choro não é muito diferente. Infelizmente tem muita gente tomando remédio pra segurar o choro a qualquer custo. Acham que isso é saudável, acham até que é normal só porque o doutor disse. Mas até o doutor precisa chorar. Quando a gente segura o choro por muito tempo, acaba se afogando nas águas da própria alma. E de afogamento a gente morre bem fácil...você nunca ouviu aquela expressão? Aquele que alguns pais diziam para seus filhos depois de surrá-los: "Engole o choro"! Alguns dizem que isso dói mais do que a própria dor física da surra. Pois bem, é exatamente isso que muitos têm feito: Engolido o choro, dia após dia...até o dia em que o coração se afogar.

Neemyas Dos Santos




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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.