Elogio à Psicopatia

Já tem um certo tempo que a nossa cultura tem feito um amplo elogio (para não dizer apologia) da psicopatia. Aparentemente estamos bem confortáveis quanto a isso, o que é mais perturbador ainda. A questão é que isso tem funcionado pra nós. Eu particularmente comecei a perceber isso pelos olhos de Hollywood. Toda a coisa começou com a transformação de 'grandes' assassinos em série (Serial Killers) em entretenimento. Assassinos em série tornaram-se em séries sobre assassinos. Mas naquela ocasião se tratava de substituir o fantasmagórico do terror dos espíritos e almas penadas pelo horror do monstro humano, mas sem humanidade: o psicopata. 

A gente aqui no Brasil aprendeu primeiro o que era um Serial Killer e só depois ouvimos que alguns deles eram psicopatas de modo que a ideia inicial comprometeu completamente tudo aquilo que pudéssemos imaginar sobre o que é a psicopatia. A verdade é que a maioria das pessoas não sabe até hoje discernir um Serial Killer de um psicopata. Geralmente as coisas são tomadas como sinônimas, o que não procede. A coisa se disseminou de tal maneira que apareceram os mais bem intencionados autores com a coragem de nos alertar sobre as mentes perigosas e em como era importante aprender "a reconhecer o psicopata ao seu lado". Bem eu quero ficar por aqui,  apenas nesse: "aprenda a reconhecer o psicopata ao seu lado".

Existe uma coisa curiosa que nós seres humanos tendemos a fazer quando estamos diante de uma alteridade muito radical, ou seja, de algo muito estranho e, aparentemente diferente, absurdo ou aterrorizante. Tempos atrás tratava-se de demonizar a coisa, ou seja, atribuir ao demônio. Agora trata-se de patologizar a coisa ou o comportamento "estranho". O que há de comum entre as duas coisas é o afastamento que isso estabelece entre o humano e o desumano. Quanto mais algo é radicalmente diferente, mas desumano ele é. Mas algo que aprendi com Freud é que às vezes não há muita distância entre o Estranho (Unheimlich) e o Familiar (Heimlich). 

Frequentemente usamos expressões para nomear situações grotescas tais como filhos agredindo pais idosos ou bandidos abusando e violentando suas vítimas; diante dessas coisas costumamos dizer: "Esse cara é um animal..."; "Esse cara é um demônio" ou..."Essa mulher é um monstro..." e existe uma em especial: "Esse cara não pode nem ser chamado de humano". É o desumano

É como se a gente quisesse afastar ao máximo essa realidade grotesca da realidade humana da qual nós fazemos parte. É como se não conseguíssemos aceitar que atos hediondos como esses são simplesmente possíveis de serem praticados por um ser humano assim como eu e você. Não aceitamos isso de forma alguma, mas com muita, mas muita facilidade mesmo nós nos sentimos à vontade e em nosso direito pleno de amarrar um estuprador ao poste, deixá-lo nu, espancá-lo, cuspi-lo, enforcá-lo, esfaqueá-lo, apedrejá-lo, humilhá-lo e tornar a sua morte ali mesmo a mais dolorosa possível. Sentimos até mesmo uma certa satisfação com rituais dessa natureza...e a esta altura do campeonato ainda nos consideramos pessoas incumbidas da justiça. Ocorre que o psicopata sempre faz justiça, ele sempre está no direito de fazer o que faz e raramente reconhece seus atos com pesar ou arrependimento. Esta é a perfeita descrição psicopata: espancar um ser humano até a morte do modo mais doloroso possível e por tudo isso sentir-se profundamente satisfeito e no desfrute dos plenos direitos humanitários...

Okay, alguns dirão que são situações diferentes. Outros dirão que pessoas de baixa escolaridade são mais propensas a essas situações animalescas. Pois bem, então deixe que eu volte ao dado sociológico da coisa, deixe que eu volte ao "aprenda a reconhecer o psicopata que mora ao lado". 

Não sei se você se percebeu, mas diferentemente do que encontrávamos nas décadas de 60 a 90 nós não temos mais mocinhos caçando serial killers e psicopatas. É interessante porque esse é um movimento bem irônico. Sutilmente nós deixamos de perseguir psicopatas para nos tornarmos psicopatas. Hoje boa parte das séries investigativas, médicas, ou de qualquer outra forma pela qual os norte americanos salvam o mundo são sempre encabeçados e liderados por pessoas com uma capacidade intelectual enorme, mas indiferentes às emoções. Quanto mais se tornam inteligentes, calculistas, tecnológicos, mais insensíveis são. É como se a insensibilidade fosse um valor, uma prova cabal de que um ser humano insensível é capaz de lidar com situações da forma mais madura. Existe um certo menosprezo pelos aspectos emocionais. Muitas vezes estes são até mesmo tratados como empecilhos à vida profissional. Observem o "Sherlock Homes" de Elementary, por exemplo. Ou ainda a garota de Stitchers,com um cérebro brilhante, mas com uma condição fictícia chamada displasia temporal capaz de alterar sua percepção do tempo e prejudicar drasticamente a permanência dos seus relacionamentos. 

Em nossos relacionamentos amorosos maduro é aquele não se apega facilmente e que demonstra pouquíssimas emoções. Enquanto isso: aquele que se apaixona com facilidade, sofre por amor e é transparente quanto ao que sente se tornou o psicologicamente desequilibrado. Temos tentado suplantar tudo aquilo que envolve todas as formas de luto que é uma das coisas mais humanas da vida: enlutar-se. E quando eu falo de luto não falo apenas de morte. Lamentar por uma perda, por um fim de relacionamento ou por qualquer outra coisa não é mais um ideal admirável. Nós exaltamos o forte, aquele que é indiferente às suas próprias perdas. Que nem tampouco caiu e já está de pé em frente à platéia. Que ri da própria desgraça para não demonstrar fraquezas.

Existe um trecho de minha dissertação* defendida recentemente na qual eu discuto a questão da homeostase e falo brevemente sobre minha percepção a respeito do que chamo de Elogio à Psicopatia

"...se entendermos por homeostase este equilíbrio entre homem e meio, então há de ser saudável de sua parte adoecer diante de situações extremamente conturbadas. Estranho seria se ele permanecesse indiferente e insensível a tudo que lhe acontece. Em outras palavras, o novo conceito de equilíbrio consiste na capacidade de manter-se controlado em tudo, invariante a qualquer movimento do mundo, vida inerte, mas produtiva. É exatamente isto que a nossa cultura contemporânea exalta: o saudável é o homem indiferente, é a vida insensivelmente alheia ao mundo e a outrem, é o psicopata de ouro que prioriza a excelência do trabalho a despeito de tudo e todos, é o resiliente que não consegue mais dormir, mas que atende ao telefone do chefe a qualquer hora da noite, o homem que não sente, pois não há tempo para o sentir, ou seja, um homem medicalizado. Portanto, paradoxalmente, uma compreensão distorcida acerca da homeostasia pode, frequentemente, beirar limites iatrogênicos".

É impossível compreender a psicopatologia da psicopatia à parte de uma cultura cada vez mais e mais psicopata. Ou melhor: é preciso que reconheçamos o caráter cultural da psicopatia como sendo ela mesma uma forma cultural e não apenas uma síndrome. A minha intenção não é negar a existência de pessoas realmente diagnosticadas como psicopatas e que algumas delas cometem atrocidades. A minha intenção é chamar atenção para o fato de que os psicopatas não são simplesmente erros genéticos da civilização. Nós e a nossa cultura produzimos e reproduzimos ideais de vida psicopatas. 

Por outro lado quero dizer que a monstruosiadade da insensibilidade é um recurso desesperado da humanidade e a medicalização da existência é um modo de foracluir aquilo que se tornou insuportável: o outro. Em psicologia sabemos que este é um princípio não da psicopatia, mas da psicose e da esquizofrenia...O próximo passo de uma cultura psicopata é uma cultura psicótica. Ou aliás, já não é isso que vivemos todos os dias? O rompimento do laço intersubjetivo pela rejeição total a alteridade? E ainda andamos por aí convencidos, dizendo um do outro em silêncio: "Eis ali um psicopata em potencial"...Não é humano.  Mesmo com toda a propaganda da eugenia alemã os nazistas deixaram de se perceber como seres humanos a partir do momento em que passaram a ver os judeus como ratos. O esquecimento do outro é o esquecimento de si.

*SANTOS, Neemyas Kerr Batalha Dos. Merleau-Ponty e a Medicalização da Existência: por uma fenomenologia do corpo próprio. São Luís, 2017. Dissertação (Mestrado em psicologia) - Universidade Federal do Maranhão, São Luís, 2017.

Neemyas Dos Santos

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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.