O poder de dar nomes


Sempre fui fascinado pelo poder da palavra. Quando eu era menino sempre ouvia os mais velhos chamando atenção para o fato de que "as palavras têm poder". Essa expressão me marcou de tal maneira que desde então as palavras passaram a comparecer para mim não como coisas abstratas e invisíveis, mas como a mais pura materialidade da existência humana minando de nossos gestos, fluindo de nossa escrita e, é claro, proferidas pela nossa boca.

Sim, de fato, as palavras têm poder. Não esqueço um curioso caso* clínico que li ainda na graduação. Tratava-se de um indivíduo que tinha completa aversão pela língua materna (Inglês no caso). Seu incômodo era tão profundo que não podia suportar ouvir a pronúncia de alguns fonemas. As palavras pareciam penetrar seu corpo pelos tímpanos e lhe causavam profunda dor de modo que frequentemente achava-se com as mãos tapando as orelhas. O caso demonstra como este martírio causado pelo som das palavras estava totalmente relacionado às ambivalências persecutórias da relação do moço em questão com a sua mãe. De fato, sua aversão era pela língua materna

Esse caso fez crescer meu fascínio pela linguagem. Lembro que cheguei a escrever um ensaio sobre a "Intercorporeidade da Fala" e a minha própria monografia foi intitulada "O Psicodiagnóstico como Gramática da Vida". Na ocasião deste último trabalho minha preocupação repousava sobre o modo como os psicodiagnósticos têm oferecido uma terceirização da compreensão de si e da compreensão do próprio sofrimento. Percebi que muitas vezes o diagnóstico fornecia uma identidade substituta que comprometia totalmente a auto-imagem dos indivíduos que eu recebia na clínica. Dali em diante o sujeito e a família passavam a limitar-se à uma narrativa de todos os fenômenos e acontecimentos da existência obedecendo à gramática das síndromes. Aquilo que não se explica na linguagem clínica, aquilo que está para além de uma descrição nosológica precisa ser traduzido e adaptado na ordem de uma sintomatologia prévia. Perdia-se ali aquilo que havia de expressão humana em cada sintoma. As descrições psicopatológicas criaram um centro gravitacional em torno do qual o paciente passava a orbitar numa semântica para além da qual não havia sentido. Era e é preciso então recolocar as essências na existência que é o único lugar aonde elas são e têm sentido. 

A análise psicopatológica, portanto, não se reduz a uma explicação dos sintomas que um indivíduo tem, como se estes fossem apenas partes defeituosas do psiquismo ou do comportamento. Em se tratando de existência humana, é preciso reconhecer os sentidos e os significados relacionados a quem aquele indivíduo é. É retornando a essa fonte das teses ou a essa tese do mundo (Weltthesis) que encontramos a verdadeira etiologia da psicopatologia. Que patologia é essa? Ora, só existe um tipo de psicopatologia, a psicopatologia humana. Existe uma medicina veterinária e uma medicina humana, existe uma biologia animal e existe uma biologia humana, mas com a psicopatologia é diferente, toda ela é humana. O desfecho de "O Psicodiagnóstico como gramática da vida" sugere uma tentativa de realizar uma re-inversão copernicana no que tange à compreensão de si no mundo e ao pathos da existência humana.

O que seria tal re-inversão copernicana? Sabe-se que Nicolau Copérnico substituiu o postulado geocêntrico pelo heliocêntrico. Isso significaria que a terra não é mais o centro do universo. É que a terra e outros planetas fazem parte de um sistema que giram em torno do sol. No contexto da filosofia isso foi metaforizado por Kant como a tomada da razão como o verdadeiro Hélios da existência. Nesse sistema a vida gira em torno da razão. O que Gilles Deleuze nos ensina tanto em "A Filosofia Crítica de Kant" (1963) quanto e "A Lógica do Sentido"(1969) é que a inversão copernicana nos serve apenas para dizer que nós, Homo Sapiens Sapiens é que estamos no poder, no topo e no controle. Tudo isso por intermédio da razão. 

Contudo quando o assunto é a expressão do pathos a coisa não é bem assim. É impossível uma análise do pathos por uma via na qual é o mundo humano gira em torno de uma linguagem inteligível ou racional. É preciso ver em contrapartida como o sujeito sofre uma translação no mundo. Nesses termos a psicopatologia deve operar simultaneamente por rotação e translação. A re-inversão copernicana que proponho é aquela na qual o psicodiagnóstico encontre nos sintomas não apenas aquilo que está previamente descrito pela gramática clínica, mas aquilo que está aquém e para além disso, ou seja, o caráter selvagem do ser e o caráter selvagem do sofrimento humano.

O fenômeno da expressão se situa de modo equívoco nas entrelinhas dos movimentos de translação do mundo e rotação da existência. Não se trata apenas de explicar e domar a linguagem por um poder da razão heliocêntrica, trata-se de compreender a voz do ser e o sentido da existência que nasce dessas situações patológicas. Não podemos então apostar numa análise psicopatológica que separe ou se baste de apenas um destes dois movimentos: em sua rotação o sujeito é sujeito de si, mas não há plenitude nesse poder ou domínio de si, pois em sua translação o sujeito é sujeito ao movimento do ao redor, do mundo, das leis do sistema, dos vetores, das forças gravitacionais sociais, culturais, judiciais, naturais, econômicas, espirituais e políticas. Não existe plenitude em nenhum dos movimentos. O pathos se revela na contrapartida de cada pessoa no modo em que cada um lida com tais campos gravitacionais da humanidade. É nesse lugar indiviso, nessa flâmula ambígua que os sintomas nascem. Cabe, portanto retornar a esse lugar se queremos realizar uma terapêutica do sofrimento existencial. Trata-se de uma redução fenomenológica, um "Zu den Sachen selbst"! Trata-se de um voltar às coisas mesmas por intermédio da linguagem. Apenas a linguagem pode nos levar até esse lugar e é aqui que mais do que nunca as palavras têm poder. As palavras podem adoecer, as palavras podem curar.

Talvez a coisa toda esteja bem sucinta neste excerto de Maurice Merleau-Ponty em a "Fenomenologia da Percepção"(1945): 

"Deus cria os seres nomeando-os, e é falando dos seres que a magia age sobre eles". 

Raramente ocorre à maioria das pessoas que é pela fala que Deus cria o universo, a terra e tudo o que há segundo o Gênesis. Existe uma relação poderosa entre a criação e a fala. Tudo começa com um "E disse Deus...". Eis aí o verbo de Deus. Deus opera pelo Verbo. É interessante porque enquanto o primeiro verso de Gênesis inicia-se com um "No princípio criou Deus o céu e a terra", o Evangelho de João inicia-se da seguinte maneira: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez". Todas as coisas são feitas pelo Verbo de Deus que no Cristianismo é o próprio filho de Deus, Jesus o Cristo.

Bem, tendo feito todas estas coisas Deus decide dar ao homem o poder de dar nomes: "Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome" (Gênesis 2.19). Dar nomes é uma tarefa humana. Nela encontramos a mesma raiz criativa do poder divino para trazer à existência as coisas que não existem. Não quero dizer com isso que a tarefa de dar nomes é semelhante ao poder de Deus, ou é uma artimanha mágica.Quero dizer que a capacidade de dar nomes tem um poder criativo. Nas palavras do velho Nietzsche (1887) 
 "Basta forjar novos nomes, novas apreciações e novas possibilidades para com o tempo – criar “coisas” novas" (Die fröhliche Wissenschaft).

O propósito e objetivo maior deste post é simples: Dar nomes é uma tarefa humana, mas mais do que isso, dar nomes é uma tarefa individual. Cada um de nós responde pela jurisdição pessoal de dar nomes às nossas vivências, aos acontecimentos de nossa história particular, às nossas sensações, aos nossos relacionamentos e aos nossos sofrimentos. Não importa a herança histórica, sociológica, familiar que nós herdamos. Não importa o idioma aprendido e disponível, a tarefa de dar nomes é intransferível. 

No contexto da clínica não é diferente. Dar nomes é um exercício intransferível. A percepção de si, a descrição dos próprios sintomas, o relato e as narrativas do sofrimento e da 'progressão' de uma síndrome psicopatológica não se restringem a aquilo que já está documentado pelos manuais, nada se assenta sobre a  urgência do doente em dar nomes. O caráter expressivo dos sintomas é uma via de mão dupla para a compreensão da própria condição e ao mesmo tempo para o desatar de aspectos etiológicos fundamentais ao tratamento e a cura. Existe um aspecto irrevogável da terapêutica e ele reside no fato de que ninguém pode falar por você. Não importa se alguém chama isso de TOC, Depressão, Agorafobia, TDAH, Transtorno do Estresse Pós-Traumático, se você não dar nomes às suas vivências, ao significado e ao sentido do seu adoecimento psíquico nada, absolutamente nada irá mudar. 

Conforme ilustra Dostoievski em "Notas do Subsolo" (Zapìski iz Pòdpol'ja - 1864): "você está certo em ser um patife, como se fosse consolo para um patife se ele mesmo já percebe que é realmente um patife". Você não deixa de ser um obsessivo compulsivo pelo simples fato de ser diagnosticado como tal. As palavras têm poder, mas elas não significam nada se não são pronunciadas pelos seus respectivos falantes. Não há poder na impessoalidade da fala. A fala em psicoterapia só se descobre poderosa para mudar as condições atuais quando deixa de repetir falas alheias e passa a exercer uma normatividade autêntica. Concluo com dois dizeres sensatos: um de Manoel de Barros (O Livro Sobre Nada-1996):

"Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou".

E o outro da minha querida e sábia professora de avaliação psicológica, Estefanea Gusmão:

"Concordo com a ênfase dada ao empoderamento de conhecer os nomes, sabendo exatamente o que eles são e a que propósito servem"


*Le schizo et les langues - 1970 - Louis Wolfson.

Neemyas Dos Santos

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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.