Um pedaço do mundo

Depois do jantar decidimos conversar em família. Pessoas que há muito tempo eu não via. Primos e parentes que não consigo recordar por completo. Sei que aos poucos ia entardecendo e ficaram poucos na sala, os demais já haviam se retirado para dormir. A noite ia alcançando a madrugada, mas o sono chegava com calma. Enquanto isso ouvíamos histórias antigas que Jarderson contava com paciência e nostalgia. A luz amarela da sala se projetava para o terraço escuro. Fazia um silêncio agradável lá fora e uma paz indescritível habitava os cômodos da casa. Lembro que depois de um momento de riso fez-se uma pausa e todos nós nos contentamos ao silêncio. Sem que ninguém esperasse um vento forte fez menção de abrir a porta. Todos deram conta, mas ninguém fez muito caso. Era como algo que havia acontecido, todos tinham conhecimento do que ocorrera, mas logo aquele acontecimento se perdeu no tempo. Mas não para mim. De alguma maneira e sabia o que aquilo significava. Aquele vento não era um vento comum, ele tinha uma vida. Assim como o profeta falava de rios cujas águas eram vivas, assim foi aquele vento que fez menção de abrir a porta. Ele fez menção de abrir a porta porque não era de seu interesse entrar. Aquilo era um convite. É como quando estamos em aula e então a porta se abre no espaço de uma brecha. Por aquela brecha vemos um rosto familiar, alguém que precisa falar muito comigo e que faz de tudo para não atrapalhar a aula. Para um convite basta apenas uma brecha do tamanho de um olhar. Foi por uma brecha que Moisés viu o Senhor passar. Basta apenas uma brecha para que um convite aconteça e foi isso que aconteceu quando aquele vento fez menção de abrir a porta. Eu fui convidado. Como prova disso mais uma vez ele soprou sobre a casa e dessa vez a porta se abriu por completo. Eu que até então hesitava pus-me então de pé e caminhei em direção à porta. Adentrei o terraço escuro e pude ver a rua iluminada pela lua de uma ponta a outra. À minha direita a floresta se erguia na escuridão, à minha esquerda era possível ver a igrejinha no fim da rua. Aquela era uma noite sem pressa. Um sentimento confuso de paz e temor se apoderou de mim dos pés à cabeça. Foi esse temor que me conduziu até à calçada. Em nenhum momento tive medo, naquele instante eu estava curioso. Eu sabia que aquele vento era vivo. Ele interrompeu a conversa na sala, me chamou para fora e agora eu sentia a sua presença gloriosa ao redor de mim. Por alguns segundos eu senti que estava à beira do mundo e o mundo inteiro dormia na ingenuidade do tempo. Eu sabia que aquela ruazinha quieta era um pedaço do universo à parte. Eu estava próximo de Deus, pois ele havia me chamado para fora. Cruzei os braços para me aquecer e esperei pra ver o que estava prestes a acontecer... 

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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.