A Parábola da Birra


  O ser humano é um bicho marrento. Marrento e birrento. Marrento porque é cheio de si, prepotente e costuma, com frequência, presumir saber o que é melhor pra si. Depois é birrento, pois quando é contrariado, naquilo que deseja logo se põe a desatar os caprichos. O supermercado é o palco favorito de toda criança birrenta. Ela vê com encanto e deslumbre a disponibilidade com que as coisas se oferecem em prateleiras coloridas. O doce, o biscoito, o brinquedo, o salgado, o chocolate parecem se dar, seduzir, se oferecer ao alcance de qualquer braço, até mesmo aos curtos braços dos pequenos.

  Quando não alcançam então apontam, mostram aos pais aquilo que desejam. Os menores insistem na voz carente, a criança sabe que quanto mais infantil se fizer parecer, mais solidário se fará o coração do adulto. Os mais crescidos apostam na argumentação: “Ô mãe, desse aqui eu nunca provei...”, “Pai, o senhor nunca mais comprou...” ou ainda “Esse aqui faz a gente ficar forte...”. Quando a argumentação, o convencimento e a chantagem emocional se esgotam então é a hora da birra. Mas a birra tem algo peculiar.

  Ao contrário do que muitos pensam a birra não é apenas um recurso de convencimento, ela também pretende penalizar os pais. A birra nunca é, pois, endereçada aos próprios pais, mas aos outros. É uma espécie de denúncia: “Vejam que tipo de pai ele é...”. É um apelo que se pretende recorrer a instâncias superiores. O espernear, o choro gritado e o mantra também querem dizer: “Vejam, além de ser um pai ruim ele também não tem controle algum da situação...por favor, alguém intervenha”.

  A esta altura, você deve estar se perguntando como posso saber tão bem o significado dessas coisas. Ora, da mesma maneira em que você as entende tão bem. A verdade é que às vezes nós somos filhos birrentos. Birrentos e Marrentos. Mostramos a Deus aquilo que queremos e tentamos convencê-lo de que aquilo é o melhor. Não que sempre escolhamos errado... Mas há que se considerar que a criança nem sempre discerne bem aquilo que lhe faz bem e aquilo que lhe faz mal. Queremos tantas coisas quando apenas uma nos é necessária (Lucas 10.41). Quando somos contrariados ou quando Deus não nos dá aquilo que queremos, no momento em que queremos então achamos que ele é mau e nos pomos aos caprichos. Tentamos recorrer a tantas outas coisas e pessoas quando, na verdade, esquecemos que a resposta vem apenas do Senhor (Provérbios 16.1).  Queremos recorrer a instâncias superiores, mas quem está acima do Senhor, quem poderia lhe dar conselhos de como ser um bom pai? (I Corintios 2.16).

  Por que esquecemos com frequência que o Senhor é bom? Por que esquecemos que ele é o nosso pastor nada nos faltará? (Salmo 23.1). Talvez seja porque esquecemos que somos suas ovelhas e Ele nosso pastor, que somos seus filhos e Ele o nosso pai. O que os filhos sabem sobre o que é bom ou mau? O que crianças sabem sobre o que faz bem ou mal? Acho que não sabem muito. Mas quando nos lembramos de que o Senhor é bom então o nosso coração descansa (Naum 1.7). Deixamos a birra de lado e passamos a esperar pelo melhor. Pois Deus é bom e tudo que ele pode nos oferecer é o Seu melhor. Pois ainda que nos pareça mau aos olhos, o Senhor continua sendo bom em todo tempo. “Provai, e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele confia” (Salmos 34:8).

Neemyas Santos
22/05/2016
Texto originalmente publicado no boletim da Igreja Batista do Olho D'Água (IBOA)
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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.