Fenomenologia: Uma corrente de Retorno


Às vezes é difícil não-acompanhar o pensamento de um autor. Porém é exatamente neste momento que tomamos melhor proveito de sua obra. O pensamento de Merleau-Ponty é como uma maré: primeiro se debruça sobre a praia levando consigo e oferecendo toda sorte de frutos que há no mar, mas depois, com uma força violenta, draga de volta para 'dentro' de si tudo que habita as águas rasas. Não seria, portanto, redundante usar a mesma metáfora que Husserl utiliza acerca da consciência interna do tempo (Zur Phänomenologie des inneren Zeitbewußtseins):  os atos intencionais da subjetividade são dados como ondas em uma corrente de experiência. Husserl falava em fluxos [Einströmen] de consciência...

Seguindo esta metáfora gosto de pensar que a fenomenologia opera por uma "corrente de retorno". Se os atos intencionais se movem como ondas em direção à praia, a fenomenologia emprega um retorno ao mar, ou como diz Husserl, um retorno às coisas mesmas [Zu den Sachen selbst]. Acontece que o grande perigo das correntes de retorno é que uma vez que nos deixamos ser levados por elas se tornam muito difícil voltar à praia. Comete-se com frequência o erro fatal de tentar voltar pelo mesmo caminho que se veio, mas sabe-se que para escapar de uma corrente de retorno é preciso nadar lateralmente e não na vertical.

Tendo encontrado o Lebenswelt, cabia a Husserl formalizar o caminho de volta até a praia. Seu 'erro' foi ter nadado verticalmente contra as correntes de retorno. A fenomenologia de Husserl ainda se exprime por uma universalidade vertical da consciência, que o fez "morrer na praia". Coube a Merleau-Ponty falar de uma fenomenologia da lateralidade, uma fenomenologia da ambiguidade. A filosofia de Merleau-Ponty operou então uma redução fenomenológica da noção de Gestalt a fim de retornar à essência de seu sentido. Esse movimento de retorno coincidiu com o próprio estilo da filosofia do autor francês.

Porém, como dizíamos, é difícil se manter fixo à figura que do fundo de sua obra elegi, pois ao redor dela existe um mar inteiro urgindo pelo meu olhar. Mas a parte testifica muito mais do que seu próprio em-si, ela é testemunho do todo. Portanto, não é sempre, do passado que necessito fazer a Epoché, mas de um futuro que insiste em se fazer presente. Eu peço calma, desvio meu olhar, mas a obra de um autor atua sobre nós por um movimento de sedução. Se caio em tentação e sou fiel em tudo a Merleau-Ponty, então me torno infiel à fenomenologia que ele mesmo ensina. 

Mas se em não acompanhar o autor eu tiro dele o seu melhor, é porque eu não o sigo por completo até onde ele já foi. Eu preciso saber onde eu mesmo preciso ir. É porque se Merleau-Ponty me ensina sobre a percepção, triste e contraditório seria abrir mão da minha percepção em favor daquilo que visava o autor. Pois a percepção não é feita do objeto percebido. "Não é o mundo percebido que faz o mundo real"

Ser fiel à minha percepção é renunciar fazer da obra de Merleau-Ponty o meu tema primeiro e me debruçar sobre o fenômeno que emergiu no meu mundo. Não que a minha percepção seja mais fidedigna que a do próprio autor, mas sim porque, antes de todas as coisas foi ela que me levou a obra do autor e não o contrário. Nesse sentido faço fenomenologia da maneira mais pura, ou seja, traindo a tradição na medida em que a faço valer. Pois foi isto que Merleau-Ponty fez com a herança deixada por Husserl.  É do meu Lebenswelt que a minha percepção se mune, embora eu só pudesse falar em Lebenswelt a partir da fala de Husserl. O que não significa dizer que o Lebenswelt estava esperando por Husserl como o Unbewußte estava esperando por Freud. O pré-reflexivo da fenomenologia não é instituído por um recalque, o Mundo-da-Vida é um pré-reflexivo instituinte. Ele está sempre ali, como um tesouro [ainda] irrefletido, e no entanto, vivido.  

A fenomenologia não está aqui para nos fazer husserlianos, ou merleau-pontianos, ou heideggerianos, mas para nos reconhecermos em primeira pessoa. O método fenomenológico foi pensado por Husserl, mas empregado por mim. A atitude fenomenológica nos habilita à uma fenomenologia da fenomenologia. Eis a peculiaridade da tradição fenomenológica, ela se revoga seu pretenso direito.


* "Subjectivity is, as such, self-temporalizing, with intentional acts originally given as waves in this streaming experiencing, to use Husserl’s own metaphor” (ZAHAVI, 2003, p.90).

Neemyas dos Santos

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Um pecador salvo pela graça de Deus, esposo de uma mulher cuja alma é semelhante a um carvalho, psicólogo apaixonado pela psicologia de Fiodor Dostoievski, Ingmar Bergman e Andrei Tarkovsky.